Home Data de criação : 09/08/30 Última atualização : 11/10/17 12:21 / 13 Artigos publicados

Noemia de Sousa  escrito em sexta 11 dezembro 2009 15:43

Viemos agora, depois de mostrar na postagem anterior a primeira carta registrada, escrita por uma mulher negra, uma poetisa moçambicana que passou por Portugal, França e que também estudou no Brasil.
Considerada figura inalienável da literatura moçambicana, sobretudo da vertente poética, Noémia de Sousa destacou-se particularmente na abordagem de temas de exaltação de valores patrióticos e de denúncia da opressão colonial. A sua produção poética encontra-se dispersa em diversas publicações nacionais e estrangeiras.
Das quais, foram coligidos por Nelson Saúte os poemas que deram à estampa o único livro publicado em vida, em 2001, sob o título “Sangue Negro”. Acerca do qual, o crítico literário Francisco Noa afirmou: “Feita arma ou confissão, a poesia de Noémia de Sousa , reunida na obra “Sangue Negro”, exprime não só as inquietações de espírito de um sujeito, claramente localizado no tempo e no espaço, como também prefigura sentimentos, percepções e aspirações, onde converge toda uma nação por acontecer.”

O poema “Se me quiseres conhecer”, que a seguir transcrevemos, traduz o espírito nacionalista, que sonhava e lutava sem tréguas por uma pátria livre e soberana:

 

SE ME QUISERES CONHECER

Para Antero

Se me quiseres conhecer,
estuda com olhos bem de ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.

Ah, essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir vida,
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enormes, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica,
altiva e mística,
África da cabeça aos pés,
- ah, essa sou eu

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando
duma canção nativa, noite dentro...

E nada mais perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.

 

Noemia foi também jornalista de agências de notícias internacionais viajou por toda a África durante as lutas pela independência de vários países.

Daí que defendamos que a poesia de Noémia de Sousa, declamatória e musical, concorre decisivamente para a emergência tanto da consciência literária como da consciência de cidadania de um país que ainda não existia, como diria José Craveirinha.”

 

 

A MINHA DOR

Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.

E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.

 

A produção poética de Noémia inscreve-se dentro de um período de grande influência de tendências estético-literárias como o Neo-realismo, sobretudo italiano, o Modernismo brasileiro e o movimento da NEGRITUDE, este último que assume como viés temático a questão do negro ao longo dos anos 40 até início dos anos 60. Esses movimentos acirraram o desejo de ruptura total com a literatura ultramarina, até então dominante, opondo-se à literatura colonial, esta profundamente empenhada em apresentar as populações negras como destituídas de cultura, civilização e história.
Noémia está mobilizada para a necessidade de tornar a literatura um espaço cada vez mais de resistência e de afirmação contra o domínio repressivo colonial e apresenta, em sua obra, naquele momento, os temas principais da Negritude, enquanto movimento intelectual e dinamizador do processo cultural africano.

 

http://www.africaeafricanidades.com/documentos/Noemia_de_Sousa.pdf           

http://pretinhosidade.multiply.com/journal?&page_start=20

 

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ESPERANÇA GARCIA  escrito em sexta 11 dezembro 2009 14:33

 

Esperança Garcia viveu na região de Oeiras na fazenda Algodões, a mais ou menos 300 km de Teresina, essa fazenda juntamente a outras dezenas de estâncias pertenciam à inspeção de Nazaré, onde é hoje o município de Nazaré do Piauí. Apesar de sua importância histórica, não se sabe quase nada sobre sua vida, esse descaso da sociedade é conseqüência principalmente de sua condição de negra escrava. Porém ela se destaca por ter sido corajosa a ponto de escrever uma carta ao governador do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, denunciando os maus tratos sofridos por ela, seus filhos e companheiras.  A carta é datada de 06 de setembro de 1770. Afirma-se que a carta original está em Portugal, e uma cópia foi descoberta no arquivo público do Piauí pelo pesquisador e historiador Luiz Mott em 1979:
“Outra minha importante descoberta arquivística foi um pequeno documento, uma única página escrita a mão, todo cheia de garranchos com muitos erros de português: trata-se de uma petição escrita em 1770, por uma escrava do Piauí, Esperança Garcia. Trata-se do documento mais antigo de reivindicação de uma escrava a uma autoridade. Documento insólito! Primeiro por vir assinado por uma mulher, já que mulher escrever antigamente era uma raridade. As mulheres eram vítimas da estratégia de seus pais, mantê-las distante das letras, a fim de evitar que elas escrevessem bilhetinhos para os seus namorados. Segundo, por se tratar de uma petição escrita por uma mulher negra.”(Mott)

Esse documento serviu de inspiração para diversas manifestações contemporâneas como o grupo de mulheres que  trabalham pela cidadania da mulher negra piauiense, e recebe o nome de Esperança Garcia assim como a maternidade de Nazaré do Piauí e a data desta carta é o dia estadual da consciência negra no Piauí  desde 1999.

Segue abaixo o modelo original da carta e sua versão atualizada:

 

CARTA

"Eu sou hua escrava de V. Sa. administração de Capam. Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Capam. lá foi adeministrar, q. me tirou da fazenda dos algodois, aonde vevia com meu marido, para ser cozinheira de sua caza, onde nella passo mto mal.
A primeira hé q. ha grandes trovoadas de pancadas em hum filho nem sendo uhã criança q. lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q. sou hu colcham de pancadas, tanto q. cahy huã vez do sobrado abaccho peiada, por mezericordia de Ds. esCapei.
A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tres annos. E huã criança minha e duas mais por batizar.
Pello q. Peço a V.S. pello amor de Ds. e do seu Valimto. ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Procurador que mande p. a fazda. aonde elle me tirou pa eu viver com meu marido e batizar minha filha q.

De V.Sa. sua escrava Esperança Garcia”

 

          "Eu sou uma  escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão  lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões , aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem,  sendo uma criança que lhe fez extrair  sangue pela boca;  em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo,  peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma  criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus  e do seu valimento,  ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para  a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha. De V.Sa. sua escrava,  Esperança Garcia"

 

 

http://www.overmundo.com.br/overblog/luiz-mott-cidadao-piauiense

www.fnt.org.br/upload/DiscursoLuisMott

 

 

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Instrumentos Afro-brasileiros  escrito em domingo 06 dezembro 2009 17:03

 

Estamos aqui neste post com uma idéia do grupo feminices dado a umas postagens anteriores, trataremos aqui de alguns instrumentos tocados na cultura afro-brasileira, e  ainda a musica "Mais que nada" de Jorge Ben Jor, que julgamos ter uma relação mais interessante com este tema, ao contrário do que fizemos anteriormente ( colocar a musica "remixada" com Black Eyed Peas) Dessa vez optamos por algo mais "original", uma vez que é a parte que mais nos interessa, onde ele fala de musica, samba, e que alí há um misto de maracatú, para os curiosos, daremos uma breve explicação sobre o que é maracatú: é um cortejo real de tradição afro-brasileira, que desfila, especialmente, pelas ruas do Recife por ocasião do carnaval. Conhecido também pelo nome de nação, ele se origina das antigas festas de coroação de reis negros, eleitos e nomeados de reis do Congo, a partir dos fins do século XVII.

A música vocal do maracatu chama-se toada e possui versos relacionados à procedência africana, instituição do rei do Congo e coisas do grupo. É cantada em dialogo pela rainha e baianas ou apenas por estas. Seu início e final são determinados, ao som de um apito.

O instrumental cuja execução se denomina toque, é constituído pelo gonguê, tarol, caixas-de-guerra e zabumbas.
Para os não satisfeitos deixaremos um link abaixo com mais informações.
Indo ao que interessa então trataremos aqui de alguns instrumentos citados no poema "Sou negro" de Solano Trindade já referido aqui em 12 de outubro de 2009, e alguns outros ainda relacionados. Iniciando as apresentações, são eles:

 

- Agogô
- gonguê
- tarol
- caixas-de-guerra
- zabumbas
- Afoxé
- Xequere
- Atabaque
- Djembe

 

O Agogô é um instrumento musical formado por dois cones metálicos unidos por um arco também de metal, o agogô é outro instrumento muito presente na cultura afro-brasileira. Sua entrada no Brasil aconteceu com a chegada dos negros africanos. Inclusive o vocábulo agogô é de origem nagô e significa sino. Presente em diversas danças e ritmos da cultura popular, sua maior participação é muito comum no samba e nos terreiros, nas cerimônias religiosas afro-brasileiras.O gonguê é um grande agogô, com uma única campânula, percutido com uma vareta de madeira.

 

O tarol é o pequeno tambor chato, em geral industrializado, com bordões de violão. . As caixas-de-guerra são um pouco mais altas que o tarol, e também apresentam bordões e possuem origem industrial.

 

 Os zabumbas são os grandes tambores de fabricação popular, com som mais intenso que o do bombo de banda de música. Para a execução destes usam-se a maçaneta, composta de cabo e bilro, extremidade ovóide, e a resposta, que é uma vareta roliça. Ele se dividem em marcante, zabumba mestre; meião, o que transmite o comando rítmico aos seguintes; repiques, grupo que obedece às indicações do anterior.

 

Afoxé é um instrumento musical composto de uma cabaça pequena redonda, recoberta com uma rede de bolinhas de plástico parecido com o Xequerê (produz um som mais forte que o afoxé, especialmente no tom grave obtido com a palma da mão tocando o maior lado da cabaça. Muitas cabaças atualmente têm cabos de madeira e pequenas contas de metal, e produzem um som bem diferente do original) sendo que o afoxé é menor. O afoxé pode ser de madeira e/ou plástico com miçangas ou contas ao redor de seu corpo. O som é produzido quando se giram as miçangas em um sentido, e a extremidade do instrumento (o cabo) no sentido oposto.

Atabaque é um instrumento musical de percussão. Constitui-se de um tambor cilíndrico ou ligeiramente cônico, com uma das bocas cobertas de  couro de boi , veado ou bode. É tocado com as mãos, com duas baquetas, ou por vezes com uma mão e uma baqueta, dependendo do ritmo e do tambor que está sendo tocado.

 

O Djembe é construído com uma pele única de animal - hoje normalmente de cabra, embora os originais fossem feitos a partir de pele de antílope. Alguns djembes industriais são feitos de fibra e com peles sintéticas, ganhando em termos de durabilidade e perdendo, naturalmente, em termos de riqueza de som.
No Senegal e no Mali. “Djem” se refere à árvore de onde sai à madeira para fazer o corpo do instrumento, e “be” significa cabra; onde a pele do animal serve como a superfície do djembe. Para tocá-lo corretamente sente-se na ponta de uma cadeira com os tornozelos cruzados, e coloque o djembe entre as pernas, de uma forma que a base do instrumento fique atrás dos seus calcanhares. Desta forma será possível tirar todos os sons que o instrumento pode lhe oferecer. Porém normalmente é tocado de pé, com o instrumento preso ao corpo do executante.

 

http://www.jangadabrasil.com.br/revista/fevereiro87/fe87002c.asp

 

 

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GOTA DO QUE NÃO SE ESGOTA  escrito em quinta 03 dezembro 2009 10:27

 

GOTA DO QUE NÃO SE ESGOTA

do livro Negroesia, 2007

cota é só a gota
a derramar o copo
não a mágoa do corpo
mas energia represada
que agora se permite e voa
em secular esforço
de superar-se coisa e se fazer pessoa
cota é só a gota
apenas nota de longa pauta
a ser tocada
com o fino arco
em mãos calosas

cota é só a gota
a explodir o espanto
de se enxugar no riso
a imensidão do pranto

ela é só a gota
ruindo pela base
a torre de narciso

é só a gota
entusiasmo na rota
afirmativa
que ameniza as dores da saga
suas chagas de desigualdade amarga

cota é só a gota
meta de quem pagou e paga
desmedido preço de viver imposto
e agora exige
seu direito a voto
na partição do bolo

é só a gota
de um mar de dívidas
contraídas
pelos que sempre tornaram gorda a sua cota

cota é só a gota afrouxando botas
de um exército
para o exercício da eqüidade

cota não reforça derrota
equilibra
entre ponto de partida
e ponto de chegada
a vitória coletiva
reinventada.

Luís Silva (Cuti)

 

 O poeta Luiz Silva (Cuti), Membro fundador da Quilombhoje-literatura e um dos criadores da série cadernos negros, vem a publico com o polemico tema da cota para negros na universidade, aqui descrita como uma apenas gota do mar de injustiças cometidas contra seres humanos marcados pela cor da pele. Será ela ponto de equilíbrio ou nódoa que marginaliza ainda mais? Eis o questionamento que propomos a partir do poema de Luiz Silva. Pretendo citar aqui também um contra-ponto, o livro de Antonio Risério entituilado  Em defesa do mestiço, em cujo lançamento  disse: não nos esqueçamos de que muitas vezes existem, numa mesma família, um filho mestiço mais escuro e um outro mais claro, ambos de ascendência africana. Um tem direito à cota e outro não?
Além disso, nem sempre é fácil apartar, no Brasil, o negromestiço do brancomestiço. O pessoal dos movimentos negros argumenta que, se os intelectuais não sabem distinguir, a polícia sabe. Não é um bom argumento. Uma polícia racista, criminosa e corrupta não pode ser critério para nortear projetos sociais para o país. o mais grave é que a luta pelas cotas pode comprometer futuros avanços sociais, ao tentar dicotomizar artificialmente o Brasil segundo o modelo racial norte-americano, que divide o mundo em brancos e pretos e nada tem de exemplar. O que fazer com nossos morenos, com os caboclos amazônicos, com os nisseis? Nem todos os pretos são pobres e nem todos os pobres são pretos. a promoção da inclusão social no Brasil não deve se pautar por linhas étnicas rígidas. Nossa pobreza não é somente negra.”

http://www.geledes.org.br/cuti/luiz-silva-cuti.html

 

 

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20/11 Dia da consciência Negra  escrito em quinta 19 novembro 2009 16:23

 

O vídeo é uma propaganda da Caixa Econômica Federal em homenagem ao dia da consciência negra, porém a poesia recitada: "Encontrei minhas origens" é de Silveira Oliveira , considerado o poeta da consciência negra pelo motivo que será citado abaixo.

Em plena ditadura militar, um pequeno grupo de cidadãos negros costumava se reunir no centro de Porto Alegre para discutir a situação dos descendentes de africanos no Brasil. Nessas conversas, eles concluíram que o 13 de maio – Dia da Abolição da Escravatura, assinada pela princesa Isabel em 1888 – não tinha maior significado. Era preciso, então, encontrar uma nova data para reverenciar a luta da população negra brasileira e enaltecer sua participação na sociedade. Nascia, assim, o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra – data de evocar a figura de Zumbi e o quilombo de Palmares e de discutir a situação do negro no país.
Entre os participantes do grupo estava o poeta, professor de português e militante da causa negra Oliveira Silveira. Foi ele quem sugeriu que o 20 de novembro – data da morte de Zumbi do Palmares – fosse adotado como dia de celebração da luta da comunidade negra brasileira. Sete anos depois, o Movimento Negro Unificado contra Discriminação Racial (MNUDR) oficializou o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra.

 

Acesse o link abaixo para saber mais sobre Silveira Oliveira, poeta negro, formado em Letras Português e Francês pela UFRGS

 

Palmares é Angola Janga.

Nem é só Zumbi ou Ganga

Zumba, senhores, Palmares

Não é só um, são milhares.


(Oliveira Silveira) 

 

http://juveth.blog.terra.com.br/2009/01/12/morre-o-poeta-professor-oliveira-silveira-ele-vira-estrela/

 

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