Viemos agora,
depois de mostrar na postagem anterior a primeira carta registrada,
escrita por uma mulher negra, uma poetisa moçambicana que passou
por Portugal, França e que também estudou no Brasil.
Considerada figura inalienável da literatura moçambicana, sobretudo
da vertente poética, Noémia de Sousa destacou-se particularmente na
abordagem de temas de exaltação de valores patrióticos e de
denúncia da opressão colonial. A sua produção poética encontra-se
dispersa em diversas publicações nacionais e estrangeiras.
Das quais, foram coligidos por Nelson Saúte os poemas que deram à
estampa o único livro publicado em vida, em 2001, sob o título
“Sangue Negro”. Acerca do qual, o crítico literário
Francisco Noa afirmou: “Feita arma ou confissão, a poesia de
Noémia de Sousa , reunida na obra “Sangue Negro”,
exprime não só as inquietações de espírito de um sujeito,
claramente localizado no tempo e no espaço, como também prefigura
sentimentos, percepções e aspirações, onde converge toda uma nação
por acontecer.”
O poema “Se me quiseres conhecer”, que a seguir transcrevemos, traduz o espírito nacionalista, que sonhava e lutava sem tréguas por uma pátria livre e soberana:
SE ME QUISERES CONHECER
Para Antero
Se me quiseres conhecer,
estuda com olhos bem de ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.
Ah, essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir vida,
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enormes, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica,
altiva e mística,
África da cabeça aos pés,
- ah, essa sou eu
Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando
duma canção nativa, noite dentro...
E nada mais perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.
Noemia foi também jornalista de agências de notícias internacionais viajou por toda a África durante as lutas pela independência de vários países.
Daí que defendamos que a poesia de Noémia de Sousa, declamatória e musical, concorre decisivamente para a emergência tanto da consciência literária como da consciência de cidadania de um país que ainda não existia, como diria José Craveirinha.”
A MINHA DOR
Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.
E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.
A
produção poética de Noémia inscreve-se dentro de um período de
grande influência de tendências estético-literárias como o
Neo-realismo, sobretudo italiano, o Modernismo brasileiro e o
movimento da NEGRITUDE, este último que assume como viés temático a
questão do negro ao longo dos anos 40 até início dos anos 60. Esses
movimentos acirraram o desejo de ruptura total com a literatura
ultramarina, até então dominante, opondo-se à literatura colonial,
esta profundamente empenhada em apresentar as populações negras
como destituídas de cultura, civilização e história.
Noémia está mobilizada para a necessidade de tornar a literatura um
espaço cada vez mais de resistência e de afirmação contra o domínio
repressivo colonial e apresenta, em sua obra, naquele momento, os
temas principais da Negritude, enquanto movimento intelectual e
dinamizador do processo cultural africano.
http://www.africaeafricanidades.com/documentos/Noemia_de_Sousa.pdf
http://pretinhosidade.multiply.com/journal?&page_start=20
















